sexta, 13 julho 2012 17:57

Factos e Feitos - Londres 2012

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Maratona em 1908 Maratona em 1908 Revista Atletismo (arquivo)

LONDRES  OLÍMPICA

NA  HISTÓRIA  DESDE  1908

 

Artigo de Sequeira Andrade

Pela terceira vez a cidade de Londres organiza os Jogos Olímpicos – a 27ª edição nas 29 Olimpíadas decorridas desde Atenas-1896. Depois dessa primeira celebração helénica não foi fácil convencer os gregos da determinação do Barão de Coubertin relativamente à mobilidade internacional das sedes do evento. A candidatura de França para 1900, apoiada na projectada organização de uma exposição universal, foi rica de propostas. O presidente municipal de Paris, Henri Desgranges, ofereceu mundos e fundos, de espaços no extenso Parque dos Príncipes a uma pista de 666 jardas e outras mais facilidades, ao ponto de afirmar que «apenas lhe era impossível oferecer também o rio Sena». Todavia, a edição parisiense dos Jogos teve uma organização muito conturbada e arrastada. 

Coubertin exultou depois com a oferta e o relativo sucesso dos terceiros Jogos, decorridos em 1904 na cidade norte-americana de St. Louis e igualmente enquadrados numa exposição. Não obstante, os gregos persistiram na sua teimosia, pelo que em 1906 se abalançaram a promover em Atenas uma edição «clandestina» que mesmo assim reuniu 901 atletas de 21 países na disputa de 10 modalidades.

 

LONDRES-1908

 

O reconhecimento da capacidade organizativa dos britânicos proporcionou-lhes o acolhimento dos IV Jogos Olímpicos, também pretendidos por Roma, e o êxito alcançado foi passo decisivo para a consagração dos propósitos do Barão. Aos 2666 atletas dos 22 países participantes nas 22 modalidades da competição, deparou-se um ambiente desportivamente muito desenvolvido. Natural a superioridade da representação inglesa que somou 56 títulos contra apenas 22 dos Estados Unidos.

No Estádio Olympia, cenário da maioria das competições, as provas de atletismo impuseram-se como principal atracção. A enorme lotação de quase 80.000 lugares esgotou consecutivamente, vincando de forma decisiva a superior importância olímpica do atletismo. Dotado de uma pista de 322 metros à corda, o recinto dispunha também de uma pista de ciclismo em cimento com o perímetro de 603,5 metros. Novidade extraordinária foi a instalação de uma piscina com 100 metros de comprimento no interior do oval, coberta quando fóra de uso e dotada de uma torre para saltos aquáticos, também retirada quando desnecessária.

À inauguração dos Jogos presidiu um amigo íntimo do nosso rei D. Carlos (e várias vezes seu companheiro em paródias parisienses) Eduardo VII de Inglaterra, soberano que anos antes viera a Lisboa numa visita perpetuada pela imposição do seu nome ao mais grandioso e central parque da nossa capital.

 

Bronca e sucessos

 

Um dos casos destes Jogos deu-se na final de 400 metros. O atleta britânico Wyndham Halswelle, cuja superioridade fora manifesta na meia-final, viu-se deliberadamente barrado na final por dois dos três concorrentes norte-americanos, um deles logo desclassificado. A prova foi repetida dois dias depois mas, à cause des mouches, em pistas separadas por cordas suspensas a 30 centímetros do solo. A delegação USA, que desde o primeiro momento contestara a decisão do júri, voltou ao tema e, inconformada com a firmeza da decisão oficial, resolveu no último momento subtrair à corrida os seus dois representantes, pelo que na distância de 400 metros e no espaço de 50,0s Halswelle se tornou o único atleta isoladamente campeão olímpico.

Outro caso, porventura o mais badalado historicamente, deu-se na maratona. O italiano Dorando Pietri entrou no estádio com boa vantagem mas completamente extenuado e já cambaleante, ao ponto de atacar a pista em sentido contrário. Emendou a caminhada mas cinco vezes caiu e cinco vezes foi auxiliado, até por elementos do júri. Cortou a meta «ao colo» no tempo de 2:54.46,4s, foi aplaudido como vencedor, e só 36 segundos depois chegou o norte-americano John Hayes. Face à inicial decisão do júri, a delegação USA protestou e, perante tão evidente irregularidade, Dorando Pietri foi desclassificado. Inconformados com tal decisão, os italianos consideraram-no…herói nacional.

 

 

LONDRES-48 – Tempos de carestia 

 

Três anos depois de terminado o conflito mundial de 1939-45, provocado pela Alemanha hitleriana, a muito sofredora e combalida cidade de Londres teve a coragem de assumir a organização dos Jogos da XIV Olimpíada, os 11ºs desde 1896. Tudo faltava, pois os tempos eram difíceis em Inglaterra como em quase toda a Europa. As enormes dificuldades alimentares foram parcialmente compensadas sobretudo pela solidariedade internacional. Assim, a Holanda ofereceu 100 toneladas de frutas e legumes; do México vieram fígados, rins e tripas; da China camarões secos, paprica e chás verde e preto; dos Estados Unidos 15.000 frascos de leite, 5000 bifes e uma boa provisão de chocolate; o Ministro da Alimentação britânico, que presidia ao racionamento alimentar, atribuiu a cada atleta a ração mensal no pós-guerra só concedida aos trabalhadores das indústrias pesadas, além de um litro de leite por dia; e, finalmente, a Federação dos Pescadores britânicos contribuiu com três toneladas de peixe. 

À inauguração dos Jogos presidiu o Rei Jorge VI, acompanhado da Rainha Isabel, da princesa Margarida e da Rainha-Mãe. Seguindo a tradição, as várias representações nacionais desfilaram segundo a ordem alfabética, do Afeganistão à Yugoslávia, fechando com a delegação do país organizador.

Não obstante o desgaste moral e material provocado pelos cinco anos de guerra, a capital britânica acolheu 6005 atletas de 59 países que competiram em 26 modalidades. 

 

Casos de sensação

 

Nas pistas a competição abriu com um verdadeiro escândalo atlético. O finlandês Viljo Heino, recordista e natural favorito à vitória nos 10.000 metros, deveria confirmar-se e confirmar a tradição, pois cinco de seis últimas finais olímpicas da prova tinham a chancela de compatriotas famosos como Hannes Kolehmainen, Paavo Nurmi (2), Ilmari Salminen e Vilho Ritola. Mas um desconhecido, Emil Zatopek, colou-se a Heino à décima volta, acompanhou-o durante mais seis voltas e de tal forma forçou o andamento que o finlandês desistiu por exaustão, assim como desistiriam também os seus companheiros, Heinstrom primeiro e Konenen depois. O franco-argelino Alain Mimoun O’Kacha foi segundo na prova, com uma volta e 57,8s de atraso. A cavalgada de Zatopek baralhou de tal forma os juízes que além de errarem a ordem de chegada de vários concorrentes também classificaram um belga desistente, tardando nas indispensáveis rectificações.

Outro grande momento destes Jogos foi protagonizado pelo norte-americano Harrison Dillard, um 110m/barreirista que entre 31 de Maio de 1947 e 26 de Junho de 1948 somara 82 vitórias consecutivas na especialidade, com o azar de por queda falhar justamente na prova de selecção olímpica. Por fortuna classificara-se na véspera como terceiro homem USA para os 100 metros. Na renhida final olímpica desta corrida o seu compatriota Barney Ewell, um dos recordistas mundiais com 10,2s, foi dado e festejado como vencedor mas, revisto o ainda rudimentar «photo-finish», Dillard foi proclamado campeão, e com a vantagem de um décimo de segundo. Cenas incríveis de entusiasmo e também de desportivismo, pois o desiludido Ewell foi o primeiro a felicitar o «novo» vencedor, assim como o «bronze» panamiano Lloyd LaBeach, também ele co-recordista e até ao presente único atleta medalhado do seu país.

Duas outras surpresas: o francês Marcel Hansenne, que em competições internacionais nunca tinha perdido uma corrida de 1500 metros, desistiu depois de dominar a prova até aos 1000 metros; e nos 5000 metros, Gaston Reiff ganhou uma vantagem que lhe permitiu resistir «in extremis» ao favorito, o rival checo Emil Zatopek, batido por dois décimos de segundo.

Por fim, sensacional a primeira vitória olímpica no decatlo de um jovem de 17 anos – o norte-americano Robert Mathias (que quatro anos depois revalidaria o título em Helsínquia). Graças à interferência da Embaixada dos Estados Unidos, no regresso dos Jogos exibiu-se no Estádio José Alvalade, e por iniciativa do prof. Fernando Ferreira dissertou sobre a sua experiência atlética perante atletas do S. L. Benfica no ginásio do clube, à Rua do Jardim do Regedor.

Ao tempo Mathias somou 7139 pontos (6628 pela tabela em vigor actualmente), superando a concorrência em seis das 10 provas. Inexperiente lançador de peso, nem as regras conhecia, pois ao alcançar no primeiro ensaio uma marca de aproximadamente 13,80m, saiu pela frente do círculo. Surpreendido pelo acenar da bandeira vermelha, ainda protestou e contestou a decisão do júri, até que lhe foi explicada a infracção… (Depois, no seu melhor ensaio válido não foi além de 13,04m).

Os Jogos de Londres, que decorreram sob frio intenso e chuva que por vezes alagou as pistas, tiveram no sector feminino uma grande figura, a mãe holandesa Fannie Blankers-Koen, que conquistou os títulos de 100m, 200m, 80m barreiras e estafeta de 4x100 metros. E não triunfou também no salto em altura porque não foi inscrita na prova…

Os Estados Unidos marcaram 41 triunfos, contra 21 da Suécia, 11 da França e 10 da Hungria. Com três vitórias apenas, duas no remo e uma na vela, o país organizador teve nestes Jogos a sua pior prestação de sempre.

 

Modéstia portuguesa

 

Estiveram em Londres quatro atletas portugueses: Nuno Morais, Álvaro Dias, João Vieira e Luís Alcide. Quer a Federação quer a Imprensa advogaram a ida de dois outros atletas, Tomás Paquete e Matos Fernandes. Mas o dr. Salazar Carreira, inspector da DGD, opôs-se terminantemente, ao ponto de emitir um comunicado oficial que abafou a intensa controvérsia. Entendia-se que, embora também sem grandes aspirações, aqueles atletas do Benfica tinham estatuto suficiente, equivalente ao dos demais seleccionados, ainda que, em verdade, ambos tivessem falhado os mínimos estabelecidos. (Ao tempo, a deslocação de atletas ao estrangeiro, sobretudo às grandes competições, não dependia nem do COP nem das federações – tão-só do prévio «agrément» da DGD. E era prática obrigatória um cerimonial de «despedida oficial» no Ministério da Educação ou na DGD, devidamente publicitado na imprensa). 

Não obstante tantos formalismos, e em «descompensação», o apoio oficial foi nulo nesse ano de 1948: massagista não, porque haveria lá – e não houve; director federativo não, porque havia um chefe de missão – e não se viu! A instalação dos atletas ficou incomodamente distante do estádio, mas ninguém foi culpado do tempo frio e chuvoso que desfavoreceu muito quer o atletismo quer outras modalidades.

Nuno Morais foi o nosso melhor: segundo com 10,9s na 11ª eliminatória de 100m, sexto na primeira série dos quartos de final com 11,2s, e terceiro na 3ª eliminatória de 200 metros, com o tempo de 22,6s; Álvaro Dias 13º na prova de qualificação do salto em comprimento com 6,86m (16º e 6,85m segundo a IAAF); João Vieira 13º na qualificação para o triplo-salto com 14,28m, e na mesma prova Luís Alcide 17º com 13,44m.

Diga-se que nem a crítica nem os adeptos da modalidade esperavam muito mais dos atletas portugueses. A modéstia do atletismo nacional, tradicionalmente evidenciada na hora das grandes competições, ainda estava e esteve connosco durante várias olimpíadas. Só várias décadas mais tarde ressoaria no mundo «o grito do Ipiranga» do Atletismo Português.

 

 Campeões 1908Campeões 1948

 

 Reginald Walker, RSA            10,8          100m                  10,3       Harrison Dillard, USA

 Robert Kerr, CAN                   22,6          200m                  21,1       Melvin Paton, USA

 Wyndham Halswelle, GBR       50,0          400m                  46,2       Arthur Wint, JAM

 Melvin Sheppard, USA         1.52,8          800m               1.49,2        Malvin Whitfield, USA

 Melvin Sheppard, USA         4.03,4        1500m               3.49,8        Henry Eriksson, SWE

 não programada                      ---         5000m             14.17,6        Gaston Reiff, BEL

 não programada                      ---       10.000m            29.59,6        Emil Zatopek, CZE

 John Hayes, USA            2:55.18,4      Maratona         2:34.51,6        Delfo Cabrera,  ARG

 Forrest Smithson, USA           15,0          110mb                13,9        William Porter, USA

 Charles Bacon, USA               55,0          400mb                51,1        Roy Cochran, USA

 Arthur Russell, GBR   *      10.47,8      3000m st.             9.04,6        Thore Sjöstrand, SWE

 não programada                      ---         4x100m                40,6        USA

 USA  **                             3.29,4         4x400m             3.10,4        USA

 Harry Porter, USA                1,905            Altura                1,98         John Winter, AUS

 Edward Cooke, USA               3,71             Vara                 4,30        Guinn Smith, USA

 Francis Irons, USA                 7,48           Comp.                 7,82        Willie Steele, USA

 Timothy Aherne, USA           14,92            Triplo                 15,40       Arne Ähman, SWE

 Ralph Rose, USA                  14,21            Peso                  17,12       Wilbur Thompson, USA

 Martin Sheridan, USA           40,89            Disco                  52,78      Adolfo Consolini, ITA

 John Flanagan, USA             51,92            Martelo               56,07      Imre Németh, HUN

 Eric Lemming, SWE            54,825            Dardo                 69,77      Kay T. Rautavaara, FIN

 não programada                      ---            Decatlo               6628       Robert Mathias, USA

 não programada                      ---            50 km M       4:41.52,0       John Ljuggren, SWE

 

  *   3200m em 1908

 **   200+200+400+800m em 1908

 

Modificado em sexta, 13 julho 2012 18:25

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