| Dom maio 26 Corrida Comendador Joaquim Morão |
LONDRES OLÍMPICA
NA HISTÓRIA DESDE 1908
Artigo de Sequeira Andrade
Pela terceira vez a cidade de Londres organiza os Jogos Olímpicos – a 27ª edição nas 29 Olimpíadas decorridas desde Atenas-1896. Depois dessa primeira celebração helénica não foi fácil convencer os gregos da determinação do Barão de Coubertin relativamente à mobilidade internacional das sedes do evento. A candidatura de França para 1900, apoiada na projectada organização de uma exposição universal, foi rica de propostas. O presidente municipal de Paris, Henri Desgranges, ofereceu mundos e fundos, de espaços no extenso Parque dos Príncipes a uma pista de 666 jardas e outras mais facilidades, ao ponto de afirmar que «apenas lhe era impossível oferecer também o rio Sena». Todavia, a edição parisiense dos Jogos teve uma organização muito conturbada e arrastada.
Coubertin exultou depois com a oferta e o relativo sucesso dos terceiros Jogos, decorridos em 1904 na cidade norte-americana de St. Louis e igualmente enquadrados numa exposição. Não obstante, os gregos persistiram na sua teimosia, pelo que em 1906 se abalançaram a promover em Atenas uma edição «clandestina» que mesmo assim reuniu 901 atletas de 21 países na disputa de 10 modalidades.
O reconhecimento da capacidade organizativa dos britânicos proporcionou-lhes o acolhimento dos IV Jogos Olímpicos, também pretendidos por Roma, e o êxito alcançado foi passo decisivo para a consagração dos propósitos do Barão. Aos 2666 atletas dos 22 países participantes nas 22 modalidades da competição, deparou-se um ambiente desportivamente muito desenvolvido. Natural a superioridade da representação inglesa que somou 56 títulos contra apenas 22 dos Estados Unidos.
No Estádio Olympia, cenário da maioria das competições, as provas de atletismo impuseram-se como principal atracção. A enorme lotação de quase 80.000 lugares esgotou consecutivamente, vincando de forma decisiva a superior importância olímpica do atletismo. Dotado de uma pista de 322 metros à corda, o recinto dispunha também de uma pista de ciclismo em cimento com o perímetro de 603,5 metros. Novidade extraordinária foi a instalação de uma piscina com 100 metros de comprimento no interior do oval, coberta quando fóra de uso e dotada de uma torre para saltos aquáticos, também retirada quando desnecessária.
À inauguração dos Jogos presidiu um amigo íntimo do nosso rei D. Carlos (e várias vezes seu companheiro em paródias parisienses) Eduardo VII de Inglaterra, soberano que anos antes viera a Lisboa numa visita perpetuada pela imposição do seu nome ao mais grandioso e central parque da nossa capital.
Um dos casos destes Jogos deu-se na final de 400 metros. O atleta britânico Wyndham Halswelle, cuja superioridade fora manifesta na meia-final, viu-se deliberadamente barrado na final por dois dos três concorrentes norte-americanos, um deles logo desclassificado. A prova foi repetida dois dias depois mas, à cause des mouches, em pistas separadas por cordas suspensas a 30 centímetros do solo. A delegação USA, que desde o primeiro momento contestara a decisão do júri, voltou ao tema e, inconformada com a firmeza da decisão oficial, resolveu no último momento subtrair à corrida os seus dois representantes, pelo que na distância de 400 metros e no espaço de 50,0s Halswelle se tornou o único atleta isoladamente campeão olímpico.
Outro caso, porventura o mais badalado historicamente, deu-se na maratona. O italiano Dorando Pietri entrou no estádio com boa vantagem mas completamente extenuado e já cambaleante, ao ponto de atacar a pista em sentido contrário. Emendou a caminhada mas cinco vezes caiu e cinco vezes foi auxiliado, até por elementos do júri. Cortou a meta «ao colo» no tempo de 2:54.46,4s, foi aplaudido como vencedor, e só 36 segundos depois chegou o norte-americano John Hayes. Face à inicial decisão do júri, a delegação USA protestou e, perante tão evidente irregularidade, Dorando Pietri foi desclassificado. Inconformados com tal decisão, os italianos consideraram-no…herói nacional.
Três anos depois de terminado o conflito mundial de 1939-45, provocado pela Alemanha hitleriana, a muito sofredora e combalida cidade de Londres teve a coragem de assumir a organização dos Jogos da XIV Olimpíada, os 11ºs desde 1896. Tudo faltava, pois os tempos eram difíceis em Inglaterra como em quase toda a Europa. As enormes dificuldades alimentares foram parcialmente compensadas sobretudo pela solidariedade internacional. Assim, a Holanda ofereceu 100 toneladas de frutas e legumes; do México vieram fígados, rins e tripas; da China camarões secos, paprica e chás verde e preto; dos Estados Unidos 15.000 frascos de leite, 5000 bifes e uma boa provisão de chocolate; o Ministro da Alimentação britânico, que presidia ao racionamento alimentar, atribuiu a cada atleta a ração mensal no pós-guerra só concedida aos trabalhadores das indústrias pesadas, além de um litro de leite por dia; e, finalmente, a Federação dos Pescadores britânicos contribuiu com três toneladas de peixe.
À inauguração dos Jogos presidiu o Rei Jorge VI, acompanhado da Rainha Isabel, da princesa Margarida e da Rainha-Mãe. Seguindo a tradição, as várias representações nacionais desfilaram segundo a ordem alfabética, do Afeganistão à Yugoslávia, fechando com a delegação do país organizador.
Não obstante o desgaste moral e material provocado pelos cinco anos de guerra, a capital britânica acolheu 6005 atletas de 59 países que competiram em 26 modalidades.
Nas pistas a competição abriu com um verdadeiro escândalo atlético. O finlandês Viljo Heino, recordista e natural favorito à vitória nos 10.000 metros, deveria confirmar-se e confirmar a tradição, pois cinco de seis últimas finais olímpicas da prova tinham a chancela de compatriotas famosos como Hannes Kolehmainen, Paavo Nurmi (2), Ilmari Salminen e Vilho Ritola. Mas um desconhecido, Emil Zatopek, colou-se a Heino à décima volta, acompanhou-o durante mais seis voltas e de tal forma forçou o andamento que o finlandês desistiu por exaustão, assim como desistiriam também os seus companheiros, Heinstrom primeiro e Konenen depois. O franco-argelino Alain Mimoun O’Kacha foi segundo na prova, com uma volta e 57,8s de atraso. A cavalgada de Zatopek baralhou de tal forma os juízes que além de errarem a ordem de chegada de vários concorrentes também classificaram um belga desistente, tardando nas indispensáveis rectificações.
Outro grande momento destes Jogos foi protagonizado pelo norte-americano Harrison Dillard, um 110m/barreirista que entre 31 de Maio de 1947 e 26 de Junho de 1948 somara 82 vitórias consecutivas na especialidade, com o azar de por queda falhar justamente na prova de selecção olímpica. Por fortuna classificara-se na véspera como terceiro homem USA para os 100 metros. Na renhida final olímpica desta corrida o seu compatriota Barney Ewell, um dos recordistas mundiais com 10,2s, foi dado e festejado como vencedor mas, revisto o ainda rudimentar «photo-finish», Dillard foi proclamado campeão, e com a vantagem de um décimo de segundo. Cenas incríveis de entusiasmo e também de desportivismo, pois o desiludido Ewell foi o primeiro a felicitar o «novo» vencedor, assim como o «bronze» panamiano Lloyd LaBeach, também ele co-recordista e até ao presente único atleta medalhado do seu país.
Duas outras surpresas: o francês Marcel Hansenne, que em competições internacionais nunca tinha perdido uma corrida de 1500 metros, desistiu depois de dominar a prova até aos 1000 metros; e nos 5000 metros, Gaston Reiff ganhou uma vantagem que lhe permitiu resistir «in extremis» ao favorito, o rival checo Emil Zatopek, batido por dois décimos de segundo.
Por fim, sensacional a primeira vitória olímpica no decatlo de um jovem de 17 anos – o norte-americano Robert Mathias (que quatro anos depois revalidaria o título em Helsínquia). Graças à interferência da Embaixada dos Estados Unidos, no regresso dos Jogos exibiu-se no Estádio José Alvalade, e por iniciativa do prof. Fernando Ferreira dissertou sobre a sua experiência atlética perante atletas do S. L. Benfica no ginásio do clube, à Rua do Jardim do Regedor.
Ao tempo Mathias somou 7139 pontos (6628 pela tabela em vigor actualmente), superando a concorrência em seis das 10 provas. Inexperiente lançador de peso, nem as regras conhecia, pois ao alcançar no primeiro ensaio uma marca de aproximadamente 13,80m, saiu pela frente do círculo. Surpreendido pelo acenar da bandeira vermelha, ainda protestou e contestou a decisão do júri, até que lhe foi explicada a infracção… (Depois, no seu melhor ensaio válido não foi além de 13,04m).
Os Jogos de Londres, que decorreram sob frio intenso e chuva que por vezes alagou as pistas, tiveram no sector feminino uma grande figura, a mãe holandesa Fannie Blankers-Koen, que conquistou os títulos de 100m, 200m, 80m barreiras e estafeta de 4x100 metros. E não triunfou também no salto em altura porque não foi inscrita na prova…
Os Estados Unidos marcaram 41 triunfos, contra 21 da Suécia, 11 da França e 10 da Hungria. Com três vitórias apenas, duas no remo e uma na vela, o país organizador teve nestes Jogos a sua pior prestação de sempre.
Estiveram em Londres quatro atletas portugueses: Nuno Morais, Álvaro Dias, João Vieira e Luís Alcide. Quer a Federação quer a Imprensa advogaram a ida de dois outros atletas, Tomás Paquete e Matos Fernandes. Mas o dr. Salazar Carreira, inspector da DGD, opôs-se terminantemente, ao ponto de emitir um comunicado oficial que abafou a intensa controvérsia. Entendia-se que, embora também sem grandes aspirações, aqueles atletas do Benfica tinham estatuto suficiente, equivalente ao dos demais seleccionados, ainda que, em verdade, ambos tivessem falhado os mínimos estabelecidos. (Ao tempo, a deslocação de atletas ao estrangeiro, sobretudo às grandes competições, não dependia nem do COP nem das federações – tão-só do prévio «agrément» da DGD. E era prática obrigatória um cerimonial de «despedida oficial» no Ministério da Educação ou na DGD, devidamente publicitado na imprensa).
Não obstante tantos formalismos, e em «descompensação», o apoio oficial foi nulo nesse ano de 1948: massagista não, porque haveria lá – e não houve; director federativo não, porque havia um chefe de missão – e não se viu! A instalação dos atletas ficou incomodamente distante do estádio, mas ninguém foi culpado do tempo frio e chuvoso que desfavoreceu muito quer o atletismo quer outras modalidades.
Nuno Morais foi o nosso melhor: segundo com 10,9s na 11ª eliminatória de 100m, sexto na primeira série dos quartos de final com 11,2s, e terceiro na 3ª eliminatória de 200 metros, com o tempo de 22,6s; Álvaro Dias 13º na prova de qualificação do salto em comprimento com 6,86m (16º e 6,85m segundo a IAAF); João Vieira 13º na qualificação para o triplo-salto com 14,28m, e na mesma prova Luís Alcide 17º com 13,44m.
Diga-se que nem a crítica nem os adeptos da modalidade esperavam muito mais dos atletas portugueses. A modéstia do atletismo nacional, tradicionalmente evidenciada na hora das grandes competições, ainda estava e esteve connosco durante várias olimpíadas. Só várias décadas mais tarde ressoaria no mundo «o grito do Ipiranga» do Atletismo Português.
Campeões 1908Campeões 1948
Reginald Walker, RSA 10,8 100m 10,3 Harrison Dillard, USA
Robert Kerr, CAN 22,6 200m 21,1 Melvin Paton, USA
Wyndham Halswelle, GBR 50,0 400m 46,2 Arthur Wint, JAM
Melvin Sheppard, USA 1.52,8 800m 1.49,2 Malvin Whitfield, USA
Melvin Sheppard, USA 4.03,4 1500m 3.49,8 Henry Eriksson, SWE
não programada --- 5000m 14.17,6 Gaston Reiff, BEL
não programada --- 10.000m 29.59,6 Emil Zatopek, CZE
John Hayes, USA 2:55.18,4 Maratona 2:34.51,6 Delfo Cabrera, ARG
Forrest Smithson, USA 15,0 110mb 13,9 William Porter, USA
Charles Bacon, USA 55,0 400mb 51,1 Roy Cochran, USA
Arthur Russell, GBR * 10.47,8 3000m st. 9.04,6 Thore Sjöstrand, SWE
não programada --- 4x100m 40,6 USA
USA ** 3.29,4 4x400m 3.10,4 USA
Harry Porter, USA 1,905 Altura 1,98 John Winter, AUS
Edward Cooke, USA 3,71 Vara 4,30 Guinn Smith, USA
Francis Irons, USA 7,48 Comp. 7,82 Willie Steele, USA
Timothy Aherne, USA 14,92 Triplo 15,40 Arne Ähman, SWE
Ralph Rose, USA 14,21 Peso 17,12 Wilbur Thompson, USA
Martin Sheridan, USA 40,89 Disco 52,78 Adolfo Consolini, ITA
John Flanagan, USA 51,92 Martelo 56,07 Imre Németh, HUN
Eric Lemming, SWE 54,825 Dardo 69,77 Kay T. Rautavaara, FIN
não programada --- Decatlo 6628 Robert Mathias, USA
não programada --- 50 km M 4:41.52,0 John Ljuggren, SWE
* 3200m em 1908
** 200+200+400+800m em 1908